Planejamento Financeiro

Desenrolados: Brasil e brasileiros estão cada vez mais endividados

Germano Laube
21 de julho, 2026
5 min read

Não é só o governo brasileiro que está com a dívida crescendo a passos largos. O brasileiro em geral está endividado. Aqui é importante trazer um contexto técnico, ter dívidas por si só não é um problema, o autor que vos fala possui dividas como FIES e financiamento imobiliário e sou considerado "endividado" por mais que esse termo soe pejorativo. O indicador que precisamos ter maior atenção é inadimplência, ou seja, os endividados que não estão conseguindo pagar as suas dívidas, além desse ponto, os juros pagos em crédito pessoal e cheque especial, também estão em patamares muito elevados. O Brasil está com o maior grau de inadimplência desde 2020, um número que atingiu 81,4 milhões de pessoas em fevereiro de 2026.

Uma matéria veiculada no portal do CNDL (Confederação nacional dos dirigentes lojistas) em Abril de 2025 informou que 31% dos brasileiros recorrem mensalmente ao cheque especial, formato de crédito mais caro do mercado. O problema chegou ao ponto de virar uma questão de política pública, com o Governo Federal lançando em 2023 um programa chamado de "Desenrola" e agora, em 2026, lançar o "Desenrola 2.0".

Como que chegamos nesse ponto?

O alto grau de endividamento e inadimplência pode advir de questões não só econômicas mas sociais. Na ótica econômica podemos apontar o custo de vida mais elevado desde a pandemia como um fator de causa, afinal, poucos preços estão hoje sequer próximos ao que chegaram antes de 2020. Com o aumento do custo de vida, é natural que se a renda não acompanhar (como geralmente não acompanha) uma fatia maior do orçamento é consumida para ter, basicamente, os mesmos produtos.

Um agravante para isso é a competição entre o crédito público e privado. Se o Governo, emissor maior de dívida e capaz de imprimir dinheiro, está pagando 14,50% de juros ao ano, qual é o juro que um ente privado, seja pessoa física ou jurídica, conseguirá? Em economias com juros baixos e segurança jurídica, o uso de crédito é facilitado e menos oneroso para pessoas e empresas.

Um outro ponto é também social. As famílias brasileiras se habituaram a outros consumos que competem pelo mesmo orçamento que antes era direcionado para custos fixos da casa e alimentação, podemos citar as plataformas de streaming, internet, compras online e inclusive jogos de azar. A baixa educação financeira também impede que as famílias façam uma gestão adequada, não é raro ver mesmo em famílias com maior educação financeira gastos com supérfluos como troca de celular parcelando o aparelho em 10 vezes (afinal parcela baixa dá para pagar).

O "viés do valor da parcela" em detrimento do custo efetivo total (CET) leva famílias a comprometerem rendas futuras com bens supérfluos, ignorando o custo final dos produtos e o quanto a acumulação das parcelas, ao longo do tempo, consumirá da renda futura. Esse jeitinho brasileiro de ir parcelando tudo, absorvendo altos gastos desde que o custo pareça baixo, traz uma cultura de alavancagem financeira muito própria do Brasil.

E as políticas públicas?

Os programas de renegociação de dívida propostos pelo governo federal não resolverão o problema. O problema crônico de endividamento não é resolvido renegociando as dívidas. Prova disso é que após o Desenrola (2023), o número de inadimplentes está maior em 2026. O Desenrola 2.0 é um programa que permitirá uso de FGTS e exigirá algumas contrapartidas como impedir o usuário de cadastro em sites de apostas, essa última relativamente frágil pois sabemos que o apostador pode usar o CPF de algum familiar ou amigo. A raiz do endividamento, considerando na ótica econômica os juros altos e perda do poder de compra, não serão tratadas diretamente.

Politicas públicas de renegociação trazem um mal incentivo social fantasiado de bondade política. Pense comigo, o que um bom pagador pensará quando a duras penas está conseguindo manter seu nome limpo, enquanto um mal pagador recebe perdão de dívida e descontos?

De acordo com o site oficial do governo, existe possibilidade de liquidação com desconto de até 77% do valor total consolidado do FIES, incluindo o principal, no caso de estudantes em atraso a mais de 360 dias. O mal incentivo se traduz em um conceito inglês chamado de Moral Hazard, que significa, em outras palavras, quando uma parte assume mais riscos porque sabe que os custos de um possível fracasso recairá sobre terceiros, como seguradoras ou, nesse caso, o governo/população.

Ou seja, eu posso me endividar mais e não pagar pois sei que em algum momento renegociarei a dívida de forma muito mais vantajosa do que se tivesse feito o pagamento da forma correta. É o mesmo perigo que ocorre quando bancos são socorridos pelo governo quando quebram, em uma espécie de socialismo dos prejuízos. É o mesmo risco que o investidor do banco Master tomou mesmo em alguns casos sabendo que o banco estava em péssima situação, afinal o FGC reembolsaria no pior cenário.

Solução

A real solução parte de fatores que o leitor talvez já esteja cansado de ouvir. O Governo gasta muito, para financiar esse gasto ele precisa aumentar arrecadação ou se endividar, estamos conseguindo fazer os dois ao mesmo tempo. Recorde de arrecadação com dívida pública crescente. Sem uma agenda de boa gestão pública dos recursos, o cidadão comum está competindo com o Governo por dinheiro, e precisará pagar mais caro para acessar esse crédito, tecnicamente falando, esse conceito se chama de Crowding-Out.

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